Gastronomia, cultura, política..
Quinta-feira, 10 de Julho de 2008
Álcool

DEBORD, Guy - Panegírico. Lisboa : Antígona, 1995.

 

 

"Situavam-se essas coisas entre o Outono de 1952 e a Primavera de 1953, em Paris, a sul do Sena e a norte da rua de Vaugirard, a leste do cruzamento da Cruz Vermelha e no lado ocidental da rua Dauphine. Assim escreveu Arquíloco: «Dá-nos lá de beber. / Verte e vinho tinto sem levantar a borra. / Que em tal posto, sóbrios não podemos nós ficar.»

 

Entre a rua do Four e a de Buci, onde a nossa juventude de todo se perdeu, bebendo copos, podíamos sentir com toda a certeza que nada melhor algum dia faríamos.

 

 

 

III

 

«Foi-me dado observar, na maior parte de quantos deixaram Memórias, que só nos mostraram claramente as suas más ações ou inclinações ruins quando porventura as tomaram por proezas ou bons instintos, coisa que às vezes sucedeu.»

 

Alexis de Tocqueville Souvenirs

 

 

Após as circunstâncias que acabo de lembrar, aquilo que sem dúvida me marcou a vida inteira foi o hábito de beber, cedo contraído. Os vinhos, os álcoois e as cervejas; os momentos em que certas dessas bebidas se impunham e os momentos em que simplesmente surgiam, foram-me delineando o fluxo principal e os meandros dos dias, das semanas, e dos anos. Duas ou três paixões, que irei contar, guardaram de modo mais ou menos permanente um grande lugar na minha vida. Mas foi esta a mais constante e a mais presente. No reduzido número das coisas que me agradaram, e que soube fazer bem, aquilo que per certo fiz melhor foi beber. Embora tenha lido muito, bebi mais. Escrevi muito menos do que a maior parte das pessoas que escrevem; mas bebi muito mais que a maioria das pessoas que bebem. Bem posso incluir-me entre aqueles de quem Baltasar Gracián pode um dia dizer, ao pensar num escol só distinguido entre alemães - neste ponto muito injusto para com os franceses, come julgo tê-lo mostrado: «Há-os que só uma vez se embebedaram, porém toda a vida Ihes durou.»

Eu que com tanta frequência tive de ler a meu respeito as calunias mais extravagantes ou muito injustas criticas, sinto aliás certa surpresa por ver que afinal se passaram trinta anos, e até mais, sem que alguma vez um descontente tenha utilizado a minha bebedeira à laia de argumento, pelo menos implícito, contra as minhas ideias escandalosas; com excepção, de resto única e tardia, de um escrito dado a lume por uns jovens drogados, em Inglaterra, no qual revelavam, per volta de 1980, que doravante eu estava embrutecido pelo álcool e que, per conseguinte, deixara de causar dano. Nunca me passou pela cabeça dissimular esta feição talvez contestável da minha personalidade, feição esta indubitável para todos quantos me tenham visto mais de uma ou duas vezes. Posso até assinalar que em todas as ocasiões bastaram poucos dias para me ver grandemente estimado, fosse em Veneza ou em Cádis, em Hamburgo ou em Lisboa, pelas pessoas que só por frequentar certos cafés fui conhecendo.

Comecei per apreciar, como toda a gente, o efeito da ligeira embriaguez, e depois, rapidamente, apreciei o que fica para além da violenta ebriedade, ao transpor-se esse estádio: uma paz magnifica e terrível o autêntico sabor da passagem do tempo. Embora talvez aparentando apenas, nas primeiras décadas, ligeiros sinais uma ou duas vezes por semana, é um fato que andei continuamente bêbedo ao longo de períodos de vários meses; sendo certo e seguro que no resto do tempo bebia muito.

Um ar de desordem, na grande variedade das garrafas exauridas, é mesmo assim susceptível, a posteriori, de uma classificação. Posso começar por distinguir entre as bebidas que bebi nos países de origem e as que bebi em Paris; mas na Paris de meados do século havia quase de tudo no que tange a bebidas. Os lugares por toda a parte, podem subdividir-se simplesmente entre o que bebia em casa; em casa dos amigos; nos cafés, nas adegas, nos bares, nos restaurantes; ou na rua, nomeadamente nas esplanadas.

As horas e as suas condições variáveis exercem quase sempre papel determinante na renovação necessária dos momentos em que se dá uma entrega à bebida, suscitando cada um desses instantes a sua razoável preferência por entre as possibilidades que se vão apresentando. Há aquilo que se bebe de manhã, e durante muito tempo esse foi o momento das cervejas. Em Bairro de Lata, certa personagem, na qual se pode detectar um entendido, professa que «de manhã, nada há melhor que a cerveja». Mas amiúde necessitei, ao acordar, de vodka da Rússia. Há aquilo que se bebe às refeições, e durante as tardes que entre elas se estendem Há vinho das noites, com os seus álcoois, e depois deles as cervejas ainda são aprazíveis; porque a cerveja então dá sede. Há o que se bebe ao fim da noite, na altura em que o dia recomeça. É fácil conjecturar que todas essas ocupações bem pouco tempo me deixaram para escrever, e é isso justamente o que convém: a escrita deve manter-se rara, pois antes depararmos com o excelente, impõe-se termos bebido durante muito tempo.

Vagueei bastante por várias cidades da Europa, nelas apreciando tudo quanto merecia sê-lo. O catálogo, em tal matéria, poderá ser vasto. Havia as cervejas de Inglaterra, onde se misturavam as enormes canecas de Munique; e as Irlandesas; e a mais clássica, a cerveja checa de Pilzen; e o admirável barroquismo da Gueuze, nos arrabaldes de Bruxelas, quando ainda possuía sabor distinto em cada cervejaria artesanal e não suportava ver-se transportada para longe. Havia os álcoois de frutas da Alsácia; o rum da Jamaica; os ponches, a akuavit de Aalborg, e a grappa de Turim, o conhaque, os cocktails; o incomparável mescal do México. Havia todos os vinhos de França, sendo os melhores os da Borgonha; havia os vinhos de Itália, e sobretudo o Barolo das Langhe, os Chianti da Toscânia; havia os vinhos de Espanha, os Rioja de Castilla-la-Vieja ou o Jumilla Mlúrcia.

Bem poucas doenças teria eu tido, caso o álcool, aos poucos, me não fosse legando algumas: das insónias às vertigens, passando pela gota. «Belo como a tremura das mãos no alcoolismo», diz Lautréamont. Há manhãs comoventes, mas difíceis."

 

 

 

 

 

 

* Na impossibilidade duma correspondência vocabular em português, o trecho em questão é vertido numa adaptação semântica do original, que foi especialmente redigido no calão dos Coquilards (séc. XV), associação sui generis de malfeitores de que terá feito parte o grande poeta François Villon. (NdT)



publicado por poejo às 16:09
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