Gastronomia, cultura, política..
Terça-feira, 28 de Agosto de 2007
"A princesa do povo"

Valente, Vasco Pulido (2007) "A princesa do povo". Público. 25 de Agosto

 

"Há 25 anos, por estranho que pareça, a Monarquia Britânica (britânica, não inglesa)

era ainda uma instituição respeitável, e relativamente imune às pressões para se

"modernizar". Essa respeitabilidade impunha, entre outras coisas, que o príncipe de

Gales se casasse com uma virgem. Porquê? Para que ninguém a seguir se viesse

gabar pelos tablóides de que tinha dormido com a futura rainha (ou mesmo, se Isabel

morresse, com a rainha) e descrever coloridamente a coisa. Quando, para garantir a

sucessão, o casamento de Carlos se tornou, por assim dizer, "inadiável", toda a gente

se riu com o sarilho em que o desgraçado estava metido. Onde iria ele descobrir tal

raridade? E quem seria ela? Foi Diana Spencer, uma jovem bonitinha, quase adolescente

e pouco esperta, à volta de quem logo se inventou, para consumo dos media, uma

história de amor melada e absurda.

O casamento, claro acabou mal. Carlos, coitado, que também não era uma grande cabeça,

ao menos percebia o seu papel na ordem constitucional e na vida política. Diana queria ser

célebre e queria ser feliz, como qualquer pequeno-burguesa analfabeta e ambiciosa,

ensopada no sentimentalismo popular do tempo. Começou então o espectáculo de uma

alta personagem do Estado, que pouco a pouco se transformou numa pop star e que os

media naturalmente tratavam como uma pop star. Andava lá tudo: grandes costureiros,

actores de cinema, jogadores de rubgy, "jornalistas" de escândalo, o inconcebível Elton John

e a bulimia da praxe. No meio disto, Diana, que romanticamente se achava "natural"

e era de facto uma exibicionista indiscriminada e louca, pedia por favor a privacidade que

ela própria anulara.

Com o divórcio e a querela com a Monarquia (um caso de puro ressentimento) veio a segunda

encarnação de Diana na figura clássica do "anjo de caridade", muito habitual nas

rainhas do século XIX. Visitou leprosos, drogados, doentes com sida; e passeou por Angola

a fingir que desarmava minas. Mostrou aí um talento particular para o estilo touchy-feely,

que disfarçava a irrelevância do exercício e comovia o público. Blair aproveitou a inspiração

e fez dela uma improvável "princesa do povo". Do povo da televisão e dos tablóides, com

certeza. Não por acaso os filhos comemoraram a morte da mãe em Wembley, com um

concerto rock. Ninguém representou como ela e egocentrismo, a vulgaridade e a

superficialidade da época, de certa maneira, a cultura da democracia liberal em que vivemos."



publicado por poejo às 10:56
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